2012-02-24

Edifício Líbano


Galeria IBEU, 6 de março, terça-feira, 20h


Edifício Líbano
O vizinho destranca a porta no ritual das quatro voltas.
Neste ruído nossas vidas se encontram.
Moramos dois andares abaixo
de onde foi território de Cuba
e há anelos esquecidos
pelos corredores.
Nas amendoeiras,
o outono passa duas vezes por ano,
desde 1938,
e um rio caudaloso de destroços
fez sua nascente no alto do morro.
Não há pombas, nem pássaros,
nos jardins do Líbano,
mas gatos sobre carros
e acenos discretos
ao vencermos as pedras
a caminho do elevador.
O cimento recobre as fendas
e tudo é servil
onde erguia-se
um pequeno chafariz
de Versailles.

2012-02-06

guias de uma cidade inexistente




Recebi recentemente uma linda contribuição para minha coleção de guias berlinenses. Publicado há 40 anos pela Librarie Hachette, na série Les Guides Bleus, foi mais um delicado presente de Christine, que passou o dia de hoje em Hong Kong (enquanto eu dou voltas e voltas em minha nova casa, tentando me apropriar do território).

O guia é mais um instrumento para pensar a cidade como a mais vibrante oficina da história e de fabulações. Como desejou W.B.:

“Quando eu estiver velho, gostaria de ter no corredor da minha casa/ Um mapa de Berlim/ Com uma legenda/ Pontos azuis designariam as ruas onde eu morei/ Pontos amarelos, as ruas onde moravam minhas namoradas/ Triângulos marrons, os túmulos/ Nos cemitérios de Berlim onde jazem os que foram próximos a mim/ E linhas pretas redesenhariam os caminhos/ No zoológico ou no Tiergarten/ Que percorri conversando com as garotas/ E flechas de todas as cores apontariam os lugares nos arredores/ Onde repensava as semanas berlinenses/ E muitos quadrados vermelhos marcariam os aposentos/ Do amor da mais baixa espécie ou do amor mais abrigado do vento.” Citado por Willi Bolle, A metrópole como medium-de-reflexão, in “Leituras de Walter Benjamin, Seligmann-Silva, Márcio. São Paulo: Anna Blumme, 1999, p.96, 97.

2012-01-11

É noite. Reverberação, Cosmocopa, a partir de 12 janeiro, quinta-feira.




É noite. 2009/11,  impressão digital sobre papel Hahnemühle, 100 x 70 cm.
Fragmentos de poemas de Drummond carimbados sobre agendas em branco, encontradas nos arquivos de meu pai.

A partir de 12 de janeiro, na mostra "Reverberação", Cosmocopa Arte Contemporânea, Rio de Janeiro.

2012-01-05

28 de dezembro de1921 ........... 31 de dezembro de 2011


 
 
   
Meu luto, o que estou vendo
será daqui em diante este verdor que te dedico.
Hoje florescem nas copas das árvores todas as minhas raízes.
(...)

[Árvore da vida, Tamara Kamenszain]


'Sigo para a luz'
dizia-me em sonho meu pai morto.
Seu sorriso se esfumava em dupla lonjura.
trazia no entanto uma tranquilidade luminosa:
havia uma mensagem literal
enunciado claríssimo onde a luz é a luz é a luz é a luz

e aonde ir é desdobrar-se em eco
como só um pai sabe fazer
envolve a alma em branco estende uma fronha
e apóia dos filhos em branco a cabeça
aí escreve premonições futuras
um destino de grandeza uma via régia
que ele firma e confirma como um médico
deixando-nos numa cura formidável
sua desaparição.

[Freud, Tamara Kamenszain]


2011-12-28

28 de dezembro de 1921

http://www.ufmg.br/nej/maaravi/cronicaleiladanzinger-humor.html


O aniversário de meu pai, que completou hoje noventa anos, me fez lembrar, mais uma vez, a que geração ele pertence. Tendo nascido em Berlim e completado 18 anos em 1939, seu destino era o campo de batalhas, como alemão, ou o campo de concentração, como judeu. Teve a sorte de escapar ao regime nazista, fugindo para o Brasil em 1935. 

Mantidas as imensas diferenças, pertenceram à sua geração: Joseph Beuys (1921 – 1986) e Paul Celan (1920 – 1970). O primeiro sobreviveu à guerra, tendo sido oficial da Luftwaffe; o segundo sobreviveu ao campo de trabalhos forçados, mas se jogou no rio Sena pouco antes de completar 50 anos. Meu pai não admirava nenhum dos dois artistas que menciono e não veria sentido algum nessa aproximação que faço. Nada do que fiz ou escrevi o alcança. Ele visitava minhas exposições sem conseguir ter propriamente acesso ao que eu fazia. Era movido pela admiração cega de que só os pais são capazes.

(Falo sobre ele no passado, mas ele está vivo, sedado em um leito de hospital, vivendo a sobrevida paradoxal que a mais sofisticada medicina propicia.)